Sempre nos escondemos atrás de alguma coisa. Pode ser muito trabalho, pode ser pouca diversão, pode ser pelo fato de não querermos que os outros conversem conosco. O fato é que todos se escondem. “Minha vida é um livro aberto” é a frase de efeito usada por todos aqueles que afirmam não possuírem nada a esconder, mas é bom lembrar que todo livro possui parágrafos de difícil interpretação.
Em Corações Solitários, Rubem Fonseca apresenta o drama de um ex-repórter policial que inicia uma nova fase de vida profissional no jornal Mulher onde passa a ter duas atribuições: responder as cartas das leitoras e escrever as fotonovelas. No entanto em Mulher todos os escritores devem usar pseudônimos femininos, o que intriga nosso narrador-personagem. Após pequenas discussões (e persuasões, é claro) decide-se pelo uso no codinome Nathanael Lessa para responder as cartas que são inventadas pelo próprio narrador-personagem e Clarice Simone para assinar as fotonovelas.
Apelidos criados para homenagear Nathanael West, autor de Miss Corações Solitários, Ivan Lessa, jornalista e cronista brasileiro e um dos fundadores de O Pasquim, Clarice Lispector e filósofa francesa Simone de Beauvoir. Das quatro personalidades, destacamos Nathanael West pelo desenrolar da narrativa bastante similar ao conto de Rubem Fonseca.
Homenagens a parte, ressaltamos o papel do Dr. Nathanael Lessa em responder as supostas cartas de leitoras da classe C enviadas ao jornal Mulher. Histórias que ele mesmo inventara e respondia, com a anuência do Peçanha (Editor do Jornal), com certo teor de otimismo para as vidas das leitoras. Mas que leitoras? Situações criadas e personagem saídos dos devaneios de um ex-repórter policial que poderiam ser verdades, poderiam ser histórias de um povo sofrido, de um povo que clama por um ombro para chorar as amarguras da vida.
São fatos inventados por um personagem criado. Mais uma máscara em uma tentativa de mostrar à sociedade o realmente existe. São relatos como o da virgem louca que não sabe se cede ao namorado ou não. Quantas mulheres não sofrem o mesmo dilema, neste momento? Pressionadas por seus namorados, amigos ou colegas a praticarem o ato sexual sem o envolvimento emocional que dizemos ser tão importante e depois se escondem envergonhadas dos atos que foram obrigadas a fazer.
Quantas viúvas existem como a senhora deixada pelo marido e com pensão pequena, tendo que viver os dramas diários? Pessoas que possuem medos de sua própria existência. Nosso personagem Nathanael Lessa criou as cartas, mas não inventou os dramas.
Já a Clarice Simone, outro codinome do nosso narrador-personagem, é responsável pelo roteiro das fotonovelas entregues a Mônica Tutsi (o fotografo chamado Agnaldo). A primeira história nos apresenta o drama de Roberto e Betty, noivos e pretendem se casar. Influenciado pelo seu amigo Tiago, o noivo procura a casa da “Superputa” Betatron para tirar a sua castidade. Descobre, então, que Betatron é na verdade sua noiva Betty. Quem é a verdadeira? Betty que se esconde na pele de Betatron ou esta que deseja viver um vida pura na face de Betty?
São linhas como essas que despertam em nossa mente a dúvida: Queremos a chance de viver uma vida diferente da nossa? Escondemos-nos em codinomes, em histórias inventadas?
Lembro do filme Substitutos, estrelado por Bruce Willis. Na trama, ambientada em 2054, noventa e tantos porcento da humanidade trocou sua existência diária, de carne-e-osso, por androides substitutos da Virtual Self. No melhor estilo Matrix, os usuários podem sentar-se em confortáveis poltronas de conexão e projetar suas consciências em bonecos perfeitos.
A oportunidade de estar em um corpo completamente diferente do seu está devidamente pesquisada e registrada hoje em dia. O que é Second Life se não exatamente isso? Poder deixar o seu corpo para trás e embarcar em aventuras e situações que você não viveria de outra forma? Mas no mundo de Substitutos a opção parece meramente estética e sexual. Flerta-se usando um corpo do sexo oposto, praticam-se esportes radicais com mais frequência ou situações de risco são abraçadas sem medo... mas é só. Basicamente, as pessoas têm os mesmos empregos enfadonhos e a sociedade opera da mesma forma - só que todos são bonitos como Barbies e Kens.
É o que Rubem Fonseca apresenta em seu conto: Uma ironia exemplar nos mostra as facetas da sociedade escondida por rostos desconhecidos do Nathanael Lessa, Clarice Simone, Mônica Tutsi, Sandra Marina ou Elisa Gabriela. Local em que o autor não sabe para quem escreve e quem lê desconhece o autor.
Motivo que leva a crer que a vida passa a ser uma criação ficcional do autor, mas mesmo assim retrata a realidade. Imagem de uma sociedade que se esconde em máscaras para cada ocasião. Todos nós possuímos a máscara de Betatron: Puros na sociedade, corrompidos em nosso íntimo.
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domingo, 4 de julho de 2010
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
"Ensaio sobre a Cegueira"
O livro do consagrado autor Jose Saramago levou-me a profundos pensamentos sobre o rumo que a humanidade está tomando. Não pude deixar de fazer analogias e associações entre o nosso estilo de vida e a ficção tão bem elaborada.
Aliás, o ano de 2009 e o inicio de 2010 foi marcado por estas obras que nos convidam a mudança. Vi Avatar e pensei: "Quero ser um alienigena azul, integrado com a natureza e com os outros seres". Acredito que são obras assim que valem a pena...
Mas, voltando a "cegueira"
Quem somos nós? Somo cegos que enxergam? Acho que sim.... Nossa visão alcança somente aquilo que queremos ver e nem sempre conseguimos identificar a verdade. "Ensaio sobre a Cegueira" mostra a natureza humana, a verdadeira. Mostra do que somos capazes para sobrevivência, o quanto podemos nos igualar aos animais (se é que já não estamos no mesmo nível). Uma história de amor? Acho que não... solidariedade e força, talvez!
Um livro que nos faz pensar sobre as atitudes, sobre a moral e sobre nossos valores. Enfim: não tenho muitas palavras para expressar os pensamentos que ocoam em minha mente, mas tenho forças para indicar o livro... Leiam!!! Não tem como se arrepender dos momentos que passarão ao lado dos nossos heróis sem nome.
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Análise do conto: O PENTÁGONO DE HAHN
O Pentágono de Hahn (Nove, novena. Osman Lins) apresenta-nos uma nova maneira de narrativas onde várias vozes, várias histórias, interagem em uma única linha cronológica, mas não assumindo a linearidade habitual com constante mudança de foco narrativo.
Ao ler a obra, nos deparamos com várias reflexões que ecoam em nossa consciência. Vamos ao encontro do amor possível, do amor incompreendido, do amor desejado, do amor sofrido, do amor platônico, do amor proibido, da solidão, do sucesso, do fracasso, da vida, da morte. A vida é um ensaio para a morte ou a morte é um preparo para a vida?
As vidas dos personagens nos demonstram os conflitos presentes na sociedade, os devaneios da mente humana e as paixões não conhecidas. Buscam saídas, soluções, percepções sobre o cosmo, sobre a origem e o porquê do fim. Apresentam o início, mas não o fim. As narrativas não apresentam um desfecho, bom ou ruim, apenas demonstram que a os conflitos, angústias da vida continuam no interior de cada ser.
O conto foi estruturado em cinco micronarrativas independentes emitidas por cinco narradores que se revezam em sete turnos durante o texto. Cada narrador, representado por símbolos, aparece seis vezes ao longo da narrativa, demonstrando o caráter geométrico e equilibrado do conto. São os narradores: O menino; o celibatário; a anciã; a moça e o homem fracassado.
A narrativa é aberta pela descrição do espetáculo de Hahn, uma elefanta, narrado pelo menino e pelo celibatário, ora separadamente ora em conjunto. Interessante o uso do símbolo epifânico da elefanta no conto percorrendo todo o texto com o intuito de revelar para cada personagem a sua mediocridade perante a vida.
Diz a mitologia Hindu que o Deus Genasha, com seu corpo de homem e cabeça de elefante, representava a sabedoria e o intelecto e que era símbolo das representações lógicas. Seus quatros braços são as representações dos atributos do corpo sutil (mente, intelecto, ego e consciência) os quais funcionam em nó. Essa alegoria utilizada pelo autor no conto demonstra a necessidade dos personagens em superar seus limites e objetivar o sentido da vida.
A primeira micronarrativa representa o cotidiano de duas irmãs, idosas e virgens, que cuidam do irmão padre bastante debilitado em sua saúde. Helônia, irmã da narradora, sempre recusa o convide da irmã em ir ver Hahn, mas se apaixona por Nassi Latif, causador dos conflitos entre as duas. Com a partida de Nassi, Helônia cai do profundo desespero e envelhecimento acabando por suicidar-se, e assim, no dia da partida da Elefanta, a irmã narradora enfrenta sozinha a morte do irmão e o suicídio da irmã.
A segunda conta a história de amor censurado entre a moça de vinte anos e Bartolomeu, um adolescente de doze anos. O primeiro encontro dos dois ocorre quando veem a Elefanta pela primeira vez e a separação no momento de sua partida.
Em seguida a narrativa do homem fracassado que retorna, por um fim de semana, à cidade natal em uma busca pelo seu passado, suas origens, porém percebe que se equivocou que essa ida ao passado seria um ideal para a sua vida, buscando na escrita o preenchimento da lacuna de suas carências. Tanto na chegado à cidade natal quanto a sua partida depara-se com Hahn e passa a refletir sobre o presente.
A narração do celibatário é uma fotografia da solidão e como a sua fascinação pela elefanta o move para romper o seu estado solitário e as frustrações de nunca conseguir. E por último a história do incompreendido menino pela família e perseguido pelos companheiros que se apaixona por Adélia, mulher casada.
Este menino passa por dois processos durante a narrativa. A transformação de menino para homem e a sua trajetória no objeto criador, representado pela admiração do narrador pelo papagaio utilizado por um empresário para anunciar o Pastoril e por fim provacando-lhe o desejo de fazer algo semelhante.
O jogo narrativo do conto estabelece uma dinâmica entre os eixos temáticos que ora são comuns e em outros momentos isolados. Assim, a presença de Hahn amarra as narrativas em uma única linha representando o passado, presente e futuro (como o símbolo desenhado na testa de Genesha) e as frustrações que os personagens vivem durante esse continuum do tempo. Atrelados a essa fronteira os temas solidão, transmutação, erotismo, criação e amor se fazem presentes nas narrativas.
Essa justaposição dos temas e oposição entre os modos de narrar enfatizam o modo não linear da narrativa e justificam o nome dado ao conto. O pentágono (um poligno de cinco lados) é representado pelos diferentes pontos de vista dos narradores aglutinados em um único eixo, a vida (Hahn).
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Breve comentário sobre o ensaio "A Literatura contra o Efêmero" de Umberto Eco
Amigos, publiquei o comentário abaixo no site http://www.recantodasletras.com.br e posto aqui também. Eu particularmente adorei as teorias de Umberto Eco.
O que é a literatura? Qual o seu propósito em nossas vidas? Por quê nos identificamos tantos com os personagens que fazem/fizeram parte de nossa existência? São perguntas reflexivas como essas que Umberto Eco provoca em nossos mais íntimos pensamentos ao ler seu ensaio.
Quem foi Odisseu? Será que minha vida é uma odisséia? Don Juan; Don Quijote, Romeu, Julieta e diversos outros personagens ganharam vida por intermédio de palavras escritas ao longo da história da humanidade. A literatura deve ser momentânea ou duradoura? Deve ser um ato criativo ou uma lição para toda a vida?
O ensaio A literatura contra o efêmero apresenta uma discussão, ou melhor, uma reflexão sobre o atributo imutável, imaterial da obra literária, tanto quanto os dogmas religiosos que influenciam nossas vidas sociais e mantêm nosso patrimônio coletivo, ou como define a psicanálise, nossos arquétipos.
Vivemos em um paradoxo que apresenta dois tipos de conquistas literárias: a eterna e a imediata. Esta última, tão presente entre nossos jovens, é uma literatura virtual que transita on-line entre computadores de todo o mundo, criando personagens ou até mesmo alterando a ‘vida’ dos já criados. Quem nunca pesou em alterar a história de A bela adormecida para que não sofresse tanto? Essa é a era do hipertexto que, conforme apresenta Umberto Eco, nos permite viajar dentro da história e nos tornamos co-criador das narrações, alterando-as até o infinito de nossa imaginação.
Mas não é essa liberdade de expressão criativa que o autor defende em seu ensaio, e sim a luta da literatura contra a momentaneidade desse novo universo. A essência imutável da narrativa provoca no leitor desejos muitas vezes experimentados somente na ação da leitura, convive com sua ansiedade, medo, espasmo, excitação e amor. Amor pelo desconhecido mundo que adentramos quando se aprecia uma obra. Se a obra escreve o autor, então nós somos lidos por ela quando estamos na figura do leitor.
Os personagens definem nosso comportamento, pois queremos ser estes seres vivos em um mundo tão distante e tão perto. Desejamos jogar o jogo proposto pela obra e adjetivamos vários seres para nosso mundo. Sofremos de complexo de Édipo, possuímos um comportamento quixotesco, um ciúmes otelano, uma dúvida hamletiana ou nos sentimos um patinho feio.
E isso tudo é errado? Complexo? Equivocado? De forma alguma. Para Umberto Eco o leitor deve aceitar o destino dos personagens e compreender toda a cosmogonia por trás do mundo narrativo. Ao ler a obra, identificamos a nossa própria vida, a nossa existência e aprendemos a experimentar as impossibilidades de alterar a estrada que percorremos, e por isso que não devemos alterar a história, e sim aprender com ela. Lembremos sempre que a literatura é um exercício de criatividade e liberdade, e principalmente uma lição para a vida e para a morte.
OBS: O ensaio "A literatura contra o efêmero" de Umberto Eco foi publicada pela Folha de São Paulo, caderno "Mais", de 18.02.2001.
O que é a literatura? Qual o seu propósito em nossas vidas? Por quê nos identificamos tantos com os personagens que fazem/fizeram parte de nossa existência? São perguntas reflexivas como essas que Umberto Eco provoca em nossos mais íntimos pensamentos ao ler seu ensaio.
Quem foi Odisseu? Será que minha vida é uma odisséia? Don Juan; Don Quijote, Romeu, Julieta e diversos outros personagens ganharam vida por intermédio de palavras escritas ao longo da história da humanidade. A literatura deve ser momentânea ou duradoura? Deve ser um ato criativo ou uma lição para toda a vida?
O ensaio A literatura contra o efêmero apresenta uma discussão, ou melhor, uma reflexão sobre o atributo imutável, imaterial da obra literária, tanto quanto os dogmas religiosos que influenciam nossas vidas sociais e mantêm nosso patrimônio coletivo, ou como define a psicanálise, nossos arquétipos.
Vivemos em um paradoxo que apresenta dois tipos de conquistas literárias: a eterna e a imediata. Esta última, tão presente entre nossos jovens, é uma literatura virtual que transita on-line entre computadores de todo o mundo, criando personagens ou até mesmo alterando a ‘vida’ dos já criados. Quem nunca pesou em alterar a história de A bela adormecida para que não sofresse tanto? Essa é a era do hipertexto que, conforme apresenta Umberto Eco, nos permite viajar dentro da história e nos tornamos co-criador das narrações, alterando-as até o infinito de nossa imaginação.
Mas não é essa liberdade de expressão criativa que o autor defende em seu ensaio, e sim a luta da literatura contra a momentaneidade desse novo universo. A essência imutável da narrativa provoca no leitor desejos muitas vezes experimentados somente na ação da leitura, convive com sua ansiedade, medo, espasmo, excitação e amor. Amor pelo desconhecido mundo que adentramos quando se aprecia uma obra. Se a obra escreve o autor, então nós somos lidos por ela quando estamos na figura do leitor.
Os personagens definem nosso comportamento, pois queremos ser estes seres vivos em um mundo tão distante e tão perto. Desejamos jogar o jogo proposto pela obra e adjetivamos vários seres para nosso mundo. Sofremos de complexo de Édipo, possuímos um comportamento quixotesco, um ciúmes otelano, uma dúvida hamletiana ou nos sentimos um patinho feio.
E isso tudo é errado? Complexo? Equivocado? De forma alguma. Para Umberto Eco o leitor deve aceitar o destino dos personagens e compreender toda a cosmogonia por trás do mundo narrativo. Ao ler a obra, identificamos a nossa própria vida, a nossa existência e aprendemos a experimentar as impossibilidades de alterar a estrada que percorremos, e por isso que não devemos alterar a história, e sim aprender com ela. Lembremos sempre que a literatura é um exercício de criatividade e liberdade, e principalmente uma lição para a vida e para a morte.
OBS: O ensaio "A literatura contra o efêmero" de Umberto Eco foi publicada pela Folha de São Paulo, caderno "Mais", de 18.02.2001.
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